Capítulo 4. Apelos à emoção

outubro 31, 2008

Este capítulo trata de diversos tipos de argumentos tradicionalmente considerados problemáticos ou falaciosos porque usam o poder de certas emoções básicas. O apelo emocional procura atingir as reações irrefletidas da pessoa na tentativa de driblar o questionamento crítico e a avaliação lógica que normalmente caracterizam o diálogo racional.

1. Argumentum ad populum

A falácia ad populum (ao povo) é tradicionalmente definida como o apelo ao entusiasmo coletivo ou a sentimentos populares com o intuito de ganhar aceitação para uma conclusão que não se sustenta em boas provas. O que é passível de crítica em um argumento ad populum é o uso do apelo emocional como substituto para informações genuinamente úteis.

Erros associados ao apelo ad populum

Um argumento implícito no próprio apelo ad populum é que, em geral, a opinião popular não determina a veracidade de uma questão. Em outras palavras, as duas formas de inferência a seguir não são, em geral, dedutivamente válidas:

(P1) Todo mundo aceita que A seja verdadeiro.

       Logo,  A é verdadeiro.

(P2) Ninguém aceita que A seja verdadeiro.

       Logo, A é falso.

Chamaríamos (P1) e (P2) de formas básicas do argumento de popularidade. Nesse caso, um argumento de popularidade pode ser considerado fraco quando trata (P1) ou (P2) como um argumento dedutivamente válido ou mais forte que permitem as provas. OU seja, se tudo o que o argumentador tem a oferecer como premissa para a conclusão de que A é verdadeiro (ou falso) é o fato de muita gente aceita que A seja verdadeiro (ou de que ninguém aceita que A seja verdadeiro), então seu argumento provavelmente é fraco. E decerto não é dedutivamente válido.

Os argumentos ad populum não são intrinsecamente errados, mas, por serem fracos, podem facilmente resultar em erros.  Deste modo, a falácia ad populum tradicional costuma ser uma combinação de dois tipos principais de erro de argumentação. Um é a falta de pertinência. O outro é o mau uso do argumento de popularidade, um argumento fraco que pode ser superestimado ou considerado mais dicisivo do que realmente é.

Outros problemas em relação aos apelos à popularidade surgem quando estes são usados para tentar persuadir alguém a agir da mesma maneira, ou quando uma prática é aceita como costume ou padrão por um grupo dominante ou popular e é preciso um argumento forte para ir contra os precedentes estabelecidos. Também quando o argumentador tenta subverter ou encerrar o diálogo racional fechando a possibilidade de que o público seja receptivo a qualquer ponto de vista contrário.

2. Apelos ameaçadores à força

A falácia ad baculum é definida, tradicionalmente, como um apelo à força ou uma ameaça para que alguém aceite a conclusão de um argumento. Ad baculum significa, literalmente, “com o báculo ou porrete”. Em geral, os exemplos desse tipo de falácia mencionam o uso de “métodos truculentos” e “bandos de intimidadores”. No diálogo racional, o argumentador deve ter liberdade para decidir por ele mesmo se aceita ou não uma conclusão, com base nos argumentos favorávies e contrários a ela. A ameaça da força não deixa essas opções em aberto e tenta bloquear as possibilidades de diálogo livre.

É preciso ter cuidado para diferenciar uma ameaça de uma advertência. Advertir alguém de um perigo ou de conseqüências pergiosas pode não ser falacioso de modo algum. O que diferencia a ameaça da advertência é a forma de entendê-las, o que pode ser difícil.

Um problema que o apelo ad baculum tem em comum com outros apelos emocionais é o fato de nem sempre ficar claro se uma decisão tomada com base em emoções ou instintos é realmente um argumento. A suspeita existe  porque a decisão foi tomada com base no medo, no interesse, na autopreservação ou no instinto, e não com base em provas.

3. Apelos à piedade

Outro tipo de apelo à emoção é o ad misericordiam, ou apelo à piedade. Ele é falacioso quando envolve o mesmo erro encontrado nos dois tipos anteriores de apelo emocional – ou seja, quando é usado para desviar a atenção de ausência de provas pertinentes que deveriam ter sido apresentadas para justificar a conclusão.

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