DOENÇA DA CIVILIZAÇÃO

novembro 4, 2008

DOENÇA DA CIVILIZAÇÃO

NIILISMO

 

            Segundo Nietzsche a sociedade ocidental está infectada por tipos doentios, mas é possível salvá-la pela trans-valorização de todos os valores.

            Propõe-se em uma reflexão do “eu”, devemos esforçar-nos para construir e reconstruir imagens numa espécie de atividade lúdica, expressando assim a multiplicidade cambiante desse seu velho “objeto”, fornecendo-lhes novos sentidos. Poderíamos perguntar-nos, porém, quais as regras desse jogo, quais os critérios a observar nesse processo criativo: trata-se de um vale-tudo desenfreado, em que qualquer um pode propor imagens a partir de seu ângulo de visão, ou existe algum propósito geral por trás de sua proposta filosófica?

            “Agredir é parte de meus instintos”, diz ele em Ecce Homo, talvez seja necessário começar pelas perspectivas, por aquelas que ele se propõe destruir, ao espírito geral do cristianismo que, aos seus olhos, seria elemento dominante de toda a história da civilização ocidental.

            A grande doença do homem moderno: o niilismo, Nietzsche oferece algum “remédio” capaz de combater esta doença e também a razão de ser doença, a genealogia expressada por Nietzsche é de estabelecer a “verdade histórica” desse fenômeno, um evidente dogmatismo em que Nietzsche não poderia incorrer, mas sim de reconstruir hipoteticamente movimento histórico determinado “tipos” culturais se teriam tornado sobre outros culminados nesse tipo patológico do homem moderno, chamando-o de “o último homem”. Na verdade a própria noção de “homem” entendida como uma representação ficcional por meio da qual nos auto-interpretamos, sem o qual não teríamos superado a mera animalidade. Representar-nos como um animal diferenciado, superior aos demais, inventar um “outro lado” da animalidade – um espírito, uma alma, uma razão – a afirmá-lo contra a animalidade, recusar seu estado “natural”. A negação da vida segundo Nietzsche chama de ideal ascético, estaria na base da própria constituição do homem com ser civilizado.

            A partir de então deveriam andar com os pés e carregar a si mesmos, enquanto antes eram levados, um terrível peso; o peso da vida em sociedade, o peso da consciência  que se atém às regras, o peso de viver sob a suspensão dos instintos, “homem” um tipo que nega a força livre da vida selvagem e se impõe a obrigação de carregar a si mesmo, a responsabilidade por seus atos. Parecer haver algo de antinatural, e é isso o que Nietzsche procura nos mostrar quando descreve este movimento de transição como um movimento liderado pelos fracos, por aqueles que, na natureza selvagem eram dominados pelos fortes – mais saudáveis, viam na dominação algo natural e positivo, os dominados a viam como algo absolutamente terrível. Nietzsche denomina como: moral dos senhores e moral dos escravos; na primeira os fortes identificam a si próprios como “bons” valorizando-se assim seus impulsos naturais que os conduzem à luta e conquista; e na segunda como inimigos os “ruins” os fracos identificam os fortes porque estes os dominam, como maus, fazendo dos impulsos naturais o mal sobre a terra, e inventam um padrão de medida artificial, a igualdade universal para servir como critério do bem, como critério de constituição de uma sociedade pacífica e justa.

Os “senhores” mais próximos da animalidade manifestaram assim uma postura ativa em face da realidade – no sentido de que simplesmente agem seguindo seus impulsos naturais, já os “escravos” manifestariam uma postura essencialmente reativa: não suportariam a realidade como ela é, já que nela são os fracos e dominados. A verdadeira origem do homem civilizado, a verdadeira raiz do tipo de homem, isto é, desta auto-imagem ficcional com que nos temos representado há alguns milênios, imagem esta baseada sempre na dualidade e no constante entre alma e corpo, entre bem e mal, entre o reino dos céus e o reino da terra.

            Embora tenha aprisionado o homem na jaula da consciência, ele teve a virtude de proporcionar um sentido à nossa existência – qualquer sentido é melhor que nenhum. O forte era mais saudável do que o fraco, mas não tinha um ideal e, portanto, não era capaz de interpretar a vida e dotá-la de algum sentido, alguma direção.

            Ao contrário, com o “ideal ascético” do fraco, passamos a interpretar a vida, a dar um resposta à pergunta “para que o homem”? A ter uma justificativa para o nosso viver, nosso sofrer, nosso querer. A interpretação – não há dúvida – trouxe consigo novo sofrimento, mais profundo, mais intimo, mais venenoso e nocivo à vida: colocou todo o sofrimento sob a perspectiva da culpa…apesar de tudo o homem estava salvo, ele possuía um sentido, a partir daí não era somente uma folha ao vento, ele podia ser algo, não importando o momento ou a direção: a vontade mesma estava salva.

            A vontade estava salva, se pensarmos no próprio querer como algo peculiar ao homem, como algo que lhe permite, à diferença dos demais seres, embora negando a vida, a humanidade ao mesmo tempo a afirmou. Ter uma justificativa, um ideal, significa ter algum padrão de medida, o homem toma isso como uma auto-superação.

            A morte de Deus apontada por Nietzsche – os grandes ideais, as grandes justificativas, os grandes sentido perderam a credibilidade e se instalou a crise de valores chamada niilismo. Ao acreditar que, “se Deus não existe, então tudo é permitido, o homem revela uma crença mais profunda na vinculação entre a própria possibilidade de um sentido da vida e a existência de Deus, ou na falta de Deus algum referencial externo ao mundo que servisse de padrão de medida. Uma vez que não há verdade absoluta a amparar-nos, ficou então como que decretado “a vida não tem mais sentido” e para a pergunta “para que o homem”? deixou de haver resposta.

            O maior problema da modernidade ocidental, a principal causa de sua atual doença, não seria tanto o pertencimento à tradição judaica-cristã, mas o fato de ela representar a decadência dessa tradição, aquilo que seria o seu melancólico final. O ideal ascético desde o princípio deu sentido a vida – recorrendo a um outro mundo, inteiramente artificial, como seu padrão de medida, então fica claro que a cura da doença, se houver alguma, jamais poderá consistir no reavivamento dessa mesma tradição, no resgate dos seus valores ou algo do gênero. “Salvar” o homem, o único caminho para voltar a “justificar a vida” e dar-lhe uma “direção ascendente”, seria a instauração de um novo ideal, de novos valores, no interior de uma interpretação inteiramente nova do mundo.

            É justamente isso que Nietzsche pretende fazer quando propõe a noção da “vontade de potencia” como chave para pensar o mundo. A vontade de potencia permitiria pensar o “querer mais” e não o “querer-continuar-assim”. Não é porque Deus nos obriga a fazer isso e aquilo que a nossa vida adquire uma direção ascendente, e não é porque Deus está ausente que nossa vida não pode ter tal direção. Um novo tipo de sentido da vida, um sentido que não exige negá-la, que não se põe em conflito com ela, mas antes valoriza e celebra. Princípio dionisíaco, isto é, o princípio de uma “afirmação incondicional da vida”, possa ser visto como o novo critério, o novo fio condutor a orientar o nosso pensamento, bem como interpretação do mundo e do homem – as novas imagens do eu. É preciso inverter essa óptica e assentar no interior do mundo próprio, nos elementos naturais de nossa existência, não exatamente julgá-la, mas antes justificá-la, reafirmá-la e reassegurá-la de suas mais elementares prerrogativas – como por exemplo, o “querer mais” do “forte” aquele egoísmo saudável e aquela natural sede de dominação que se encontravam sufocados e reprimidos, sob a tirania universal do igualitarismo cristão, uma tirania cuja raízes, como vimos estariam na rebelião moral dos escravos.

            Agora o homem tem de voltar a acreditar no próprio mundo, no reino da terra, como um reino cujo sentido não precisa ser dado de fora, mas pode ser encontrado aqui mesmo, em nossos impulsos mais naturais, em nossa própria vontade de potencia. E esse acreditar, como uma atitude valorativa essencialmente distinta da descrença generalizada que acomete o homem moderno, seria para Nietzsche a única forma de curá-lo da sua doença. Jamais voltar a acreditar em algo externo, em alguma verdade absoluta, atemporal e universal que pudesse substituir o velho Deus cristão, e sim um voltar a acreditar em nós mesmos, isto é, na singularidade das vivencias que nos constituem  – a cada um de nós – como uma fonte própria de valores. Quando Nietzsche faz a defesa do egoísmo dos fortes como uma nova forma de “justiça” é justamente isto que ele tem em mente. É preciso restituir à força dos impulsos naturais, que emanam da subjetividade, o direito à criação, o direito à instituição de novos valores, será possível restabelecer um mínimo de espontaneidade no fluxo interior de nossos impulsos e vivencias. 

            Curar a humanidade significa, agora, livrá-la desse mal, significa combater o ideal ascético e defender o ideal dionisíaco, combater a crença em verdades externas e defender a crença em verdades internas, em virtudes pessoais capazes de dar a cada vida individual um sentido próprio, singular e inimitável. Para curar-se de sua doença, que é a doença da época diria Nietzsche, o homem (indivíduo) moderno não tem a quem recorrer, senão a si próprio – é a ele que cabe encontrar, na singularidade de suas vivencias mais pessoais, os fundamentos de um novo e revigorado sentido de existência, a indicar um caminho de crescimento e auto-superação que lhe restituía, assim, “grande saúde” de um viver autentico.

           

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