ARGUMENTAÇÃO

novembro 4, 2008

“Consideremos as cores vermelha e branca do pórfiro; impeça-se a luz de incidir nele e as cores desaparecem; deixa de produzir em nós quaisquer idéias ou noções de cor. Com o retorno da luz, esta nos transmite, de novo, essas aparências. Poderá alguém pensar que alterações reais são feitas no pórfiro pela ausência ou presença da luz, e que essas idéias de brancura e vermelhidão estão realmente no pórfiro sob a luz, quando é evidente que não há cor no escuro? Possui, de fato, uma tal configuração de partículas, quer de noite quer de dia, que estão aptas, graças aos raios de luz refletidos em algumas partes dessa pedra dura, a nos transmitir a idéia de vermelhidão, e refletir, em outras partes, a idéia de brancura. Mas o branco e o vermelho não estão na pedra, em momento nenhum, tratando-se apenas de uma contextura que tem o poder de nos conceder tais sensações”.

JOHN LOCKE, Um Ensaio Sobre o Entendimento Humano

 

 

“Poderá alguém pensar que alterações reais são feitas no mármore pela ausência ou presença da luz, e que essas idéias de brancura e vermelhidão estão realmente no mármore sob a luz, quando é evidente que não há cor no escuro. Consideremos as cores vermelha e branca do mármore, impeçamos a luz de incidir nele e as cores desapareceram, deixa de produzir em nós quaisquer idéias ou noções de cor, por que o retorno da luz, nos transmite, de novo, essas aparências. Portanto possui uma tal configuração de partículas, quer de noite, quer de dias, estão aptas, assim graças aos raios de luz refletidos em algumas partes dessa pedra dura, a nos transmitir a idéia de vermelhidão, e refletir, em outras partes, a idéia de brancura. Conseqüentemente o branco e o vermelho não estão na pedra, em momento nenhum, trata-se apenas de uma ligação entre as partes do todo que tem o poder de nos conceder tais sensações”.

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4. Sempre que um homem transfere seu direito ou a ele renuncia é em consideração a algum direito reciprocamente transferido para si próprio, ou a algum outro bem que dessa maneira espera obter. Por isso, é um ato voluntário; dos atos voluntários de qualquer homem o objetivo é algum bem para ele próprio. Portanto, existem certos direitos dos quais nunca se teve notícias, por palavras ou outros indícios, que o homem tenha abandonado ou transferido. Em primeiro lugar, o homem não pode renunciar ao direito de resistir a quem o ataca pela força para lhe roubar a vida; porque não se concebe que ele pretenda desse modo, obter algum bem para si próprio.

THOMAS HOBBES, Levithan (apud: COPI, 1978, p.40-43)

 

Paráfrase de Ana Paula M. Flores

 

Quando um homem transfere ou renuncia a alguns de seus direitos, o faz em troca dos direitos que irá receber desta ação. A renúncia ou a transferência de direitos é uma escolha que visa trazer o bem para ele próprio. Por conseguinte, existem direitos que o homem não pode renunciar ou transferir. O homem não pode renunciar ao direito de defender-se quando sua vida é ameaçada por outro; desta renúncia, ele não tirará bem algum para si próprio.

“Não é possível conceber alguma coisa no mundo, ou mesmo fora dele, a que se possa chamar de boa sem restrições, exceto uma boa vontade. Inteligência, argúcia, discernimento e outros talentos do espírito, sejam qual for o nome que se lhes dê, ou a coragem, a resolução e a perseverança, como qualidades do temperamento, são indubitavelmente boas em muitos aspectos; mas esses dons da natureza podem também tornar-se extremamente nocivos se a vontade que vai usá-los e que, portanto, constitui o que se designa por caráter, não for boa. O mesmo ocorre com os dotes de fortuna. Poder, riqueza, honra, até a saúde, bem-estar e contentamento geral com nossa condição, a que se chama felicidade, inspiram o orgulho e, com freqüência, a presunção, se não houver uma boa vontade para corrigir a influência desses males sobre o espírito e, concomitantemente, retificar também todo o princípio de conduta e adaptá-lo à sua finalidade.”  

Immanuel Kant In: Princípios Fundamentais da Metafísica da Moral (apud, COPI, 1978, p. 42)

 

Paráfrase de Janaína:

 

     Qualidades como inteligência, um bom discurso, capacidade de discernir, coragem, resolução e perseverança mesmo sendo indiscutivelmente boas podem tornar-se prejudiciais se forem usadas por alguém com mau caráter. Mesmo características como poder, riqueza, saúde, felicidade podem provocar orgulho e às vezes presunção. Isto se a pessoa não estiver atenta à sua conduta e disposta a estar constantemente corrigindo-se. Sendo assim, somente uma boa vontade pode ser considerada boa sem nenhuma restrição.

6. “É deveras uma opinião estranhamente predominante  entre os homens que as casas, montanhas, rios, e numa palavra, todos os objetos sensíveis, têm uma existência, natural ou real, distinta deles, sem serem percebidas pelo entendimento. Mas, por maior que sejam a segurança e a aquiescência com que esse princípio é aceito no mundo, quem se decidir no seu íntimo contesta-lo poderá perceber, se não estou equivocado, que ele implica uma contradição manifesta. Pois, que são os objetos já citados senão as coisas que percebemos pelos sentidos? E que percebemos, além de nossas próprias idéias e sensações? Não é francamente repugnante que quaisquer dessas coisas, ou qualquer combinação delas, existam sem serem percebidas?”

BERKELEY, George, Tratado Sobre os Princípios do Conhecimento Humano (apud. COPI, 1978, p. 41)

 

Paráfrase de Juliano:

 

Aceita-se, pela maioria das pessoas, que os objetos sensíveis têm uma existência, natural ou real,  sem necessariamente serem percebidos pelo entendimento humano. Os objetos sensíveis são, por assim dizer, as coisas que percebemos pelos sentidos e, o que percebemos pelos sentidos são somente nossas idéias e sensações. Logo, aceitarmos a idéia de que esses objetos sensíveis possam ter uma existência sem que esta seja percebida pelo homem, significa aceitarmos, consciente ou inconscientemente, uma contradição.